DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; Sola Scriptura, sola Gratia, sola Fide, soli Deo Glória, solus Christus;

DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; SOLA SCRIPTURA, SOLA GRATIA, SOLA FIDE, SOLI DEO GLÓRIA, SOLUS CHRISTUS; Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Judas:3;

domingo, 24 de junho de 2012

Barganha ou reciprocidade?



Por Pedro Araújo É impressionante como muitas coisas que ouvimos repetidamente nunca disseram, necessariamente, aquilo que as pessoas tanto querem que digam! Isso ocorre com muitas passagens e versículos bíblicos que já viraram mais que chavão no meio evangélico, e basta simplesmente observarmos com mais calma, atenção e honestidade essas passagens e versículos que o real sentido do que dizem salta à vista. Vejamos o versículo abaixo: . “Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos deitarão no regaço; porque com a mesma medida com que medis, vos medirão a vós.” (Lucas 6:38) Este texto é geralmente sempre citado na hora de incentivar as pessoas a dizimar e ofertar na igreja, mas basta levarmos em conta o contexto imediato pra vermos que estas palavras de Jesus não falam, necessariamente, de dízimos e ofertas (e pra encontrarmos alguma relação temos que ampliar muito, mas muito mesmo, o contexto). Ora, este versículo faz parte do chamado “sermão do monte”, registrado no capítulo 6 do evangelho de Lucas a partir do versículo 17 (e também nos capítulos de 5 a 7 de Mateus), e na “seção” do sermão onde ele aparece Jesus está falando basicamente de como devemos tratar uns aos outros, o que pode facilmente ser percebido simplesmente observando o parágrafo em que o mesmo se encontra (Lucas 6:27-38), e mais ainda lendo por completo as passagens relacionadas. Neste trecho o Mestre está basicamente destacando que devemos retribuir o mal com o bem, e não fazer o bem simplesmente com a intenção de receber algo em troca. E mesmo que te retribuam o bem com o mal, é de Deus que vem nossa real recompensa. Quando fazemos o bem entendendo que ele não é moeda de troca estamos revelando a característica de um verdadeiro filho de Deus (Lucas 6:35). Mas é claro que Deus é justo e misericordioso, e – mesmo sabendo que receber algo em troca não deve ser a nossa motivação – quando o bem é algo que brota do nosso coração pessoas são tocadas, e nós colheremos os frutos disso, não pra nossa própria glória, mas porque o bem gera bem! Por isso, apesar de ouvirmos tanto, não é realmente de dízimos e ofertas que o versículo 38 – que destacamos no início – está falando. Ele simplesmente reforça o princípio de reciprocidade, no qual aquilo que se planta se colhe, e em abundância, uns para com os outros. É claro que este princípio pode ser aplicado à questão financeira, porém é lamentável como verdades bíblicas como esta são usadas isolada e limitadamente, e na maioria das vezes com focos individualistas. Sejamos sinceros, quem oferta ou dizima pensando na prosperidade do vizinho? Como raras exceções (se é que existe algo do tipo), as ofertas e os dízimos são tidos como algo “particular” entre a pessoa e Deus, é uma coisa que quase que invariavelmente é feita pensando em si mesmo, no benefício “próprio”. Não estou dizendo que contribuir financeiramente é errado, nem que todos agem assim tão equivocadamente, mas a forma que vemos a questão e que ela é normalmente pregada é que na maioria das vezes está distorcida, dando até a ideia de barganha em alguns casos. O foco do contribuir não deve estar na bênção ou na  ”proteção na área financeira” que você vai receber fazendo isso, mas deve estar essencialmente no entendimento de que isso beneficiará o coletivo, seja em obras sociais, seja, principalmente, na evangelização e em coisas que promoverão a edificação da Igreja. Contribuímos porque fazemos parte da obra, porque recebemos responsabilidade, como servos, na expansão do Reino. Contribuímos não pra nós, mas por causa dos outros, por causa do Reino, e se recebermos, assim, algo em troca, é pela graça de Deus, para que nos apresentemos ainda mais como servos dispostos. Não que Deus precise disso pra fazer algo, mas porque Deus coloca em Seus servos o entendimento da essência das coisas, e por isso dispomos. Um outro texto que se relaciona diretamente como este é o de II Coríntios 9:6-8. Este texto também é muito usado na ora do “ofertório”, e de fato – e aqui sim, explicitamente – vemos que a passagem em que ele se encontra, que compreende os capítulos 8 e 9 da epístola, fala de ofertas, de “dinheiro”. Mas, de novo, qual é o foco? O foco é o outro, o próximo. Paulo está estimulando os cristãos de Corinto e contribuírem com a coleta em favor dos cristãos que estavam passando dificuldades na Judeia. A mensagem aqui, bem como no texto de Mateus, nunca foi voltada para algo “particular”, nunca falou, por exemplo, das “recompensas do dizimista e ofertante fiel”. E vejamos como Paulo vai fundo na essência quando diz “cada um contribua segundo propôs no seu coração; não com tristeza, nem por constrangimento; porque Deus ama ao que dá com alegria” (II Coríntios 9:7). A atitude que flui do coração é que é ressaltada, algo que é feito não por causa da necessidade – seja ela a nossa necessidade de sermos abençoados ou “protegidos contra o devorador“, ou mesmo por “pena” dos necessitados – mas com a alegria de servir daquele que foi chamado por Deus para ser uma bênção aos outros, um instrumento do Reino. Sim, vemos também aqui que Deus recompensa, como Jesus também disse em Mateus. É óbvio que Deus recompensa, mesmo sem ser ter “obrigação” nenhuma (pois somos nós é que não fazemos mais que nossa obrigação em contribuirmos com a obra e para o bem dos outros, muito mais do que com coisas materiais, mas também com as nossas próprias vidas). Mas esta “recompensa” não é pra que fiquemos simplesmente “numa boa”, muito menos para que louvemos a nós mesmos pela nossa “fidelidade”, “generosidade” e consequente “prosperidade”, mas para que, sendo abençoados, abençoemos mais ainda (II Coríntios 9:8). O foco destas passagens não é apresentar uma “regra de prosperidade”, mas um princípio de amor, de preocupação uns para com os outros (pessoas) e para com a obra de Deus (que visa pessoas), de reciprocidade. E o objetivo neste artigo não é julgar ninguém, mas incentivar para que possamos ir além, e até mesmo fugir, dos jargões e dos “amuletos gospel”, para que enxerguemos em cada leitura que fizermos na Bíblia a verdadeira essência do cristianismo. Leia também: O desequilíbrio acerca do dízimo e o direito de amaldiçoar

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