DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; Sola Scriptura, sola Gratia, sola Fide, soli Deo Glória, solus Christus;

DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; SOLA SCRIPTURA, SOLA GRATIA, SOLA FIDE, SOLI DEO GLÓRIA, SOLUS CHRISTUS; Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Judas:3;

terça-feira, 19 de junho de 2012

O calvinismo e a escravidão - A escravidão e o cristianismo reformado, parte 01



O princípio de escravidão, pois, fora claramente denunciado pelo Cristianismo reformado desde suas origens. E uma tentativa de estabelecer novas relações com os indígenas dos países em via de colonização fora mesmo empreendida por calvinistas desde a metade do século XVI. Procedentes de Genebra, protestantes tinham a intenção de fundar no Brasil uma colônia de novo tipo. Desejosos de respeitar plenamente as pessoas e os direitos indígenas, queriam criar uma verdadeira comunidade evangélica naquele país. Em março de 1557, um contingente de refugiados franceses, acompanhados de dois pastores huguenotes, foi enviado pelo reformador João Calvino para junto do cavaleiro de Villegagnon. Este desembarcara, em 1555, na emborcadura do rio de Janeiro (Rio de Janeiro). Desejava estabelecer lá uma colônia francesa que professasse a fé reformada. Naquela comunidade nova, todos os membros deviam viver em pé de igualdade, no espírito do Evangelho. Um deles, Jean de Léry, teólogo e artesão sapateiro, escreverá mais tarde a história de uma viagem feita às terras do Brasil, onde ele narra essa aventura que foi muito mal-sucedida, em razão do caráter versátil de Villegagnon.[i] Contrariamente às idéias difundidas pelos colonizadores da época, Jean de Léry proclama que os indígenas colonizados são não apenas pessoas respeitáveis, mas que possuem qualidades de que muito frequentemente carecem os cristãos, mesmo aqueles que se reputam mais civilizados. "Ainda que eu tenha sempre amado e ame ainda minha pátria", escreve, "todavia, vendo não só a pouca ou quase nenhuma lealdade e fidelidade que nela existem, mas, o que é pior, a deslealdade com que nela se tratam mutuamente as pessoas, lamento muitas vezes que não esteja entre os selvagens, cuja sinceridade conheci mais que a de muitos daqui, os quais, para sua condenação, levam o nome de cristão".[ii] E como as novas descobertas geraram, nesse século de ardor colonizador, violentas paixões pelo ganho e especulações financeiras pouco escrupulosas, o autor sublinha que o nível moral dos colonizadores não poderia servir de modelo para os colonizados. "Nesta matéria", escreve, "considerem detidamente o que fazem nossos ricos agiotas, que sugam o sangue e o tutano, e por conseguinte comem em vida tantas viúvas, órfãos e outras pobres pessoas, cujas gargantas era preferível cortar de um só golpe a fazê-los languir dessa forma"[iii]. Identificava-se, nessas observações, a mesma linguagem de Calvino quando equipara a escravidão ao assassinato. "Subtrair a liberdade a um homem", escrevia este reformador, "equivale a matá-lo". "Privar um homem de tão grande bem, é como que cortar-lhe a garganta" (Comentário Gênesis, cap. 12, v. 5). Calvino não partilhava absolutamente das idéias de seu tempo sobre a colonização. Se bem que a pressão da Igreja antiga sobre a sociedade ocidental tivesse levado à proscrição, desde o século X, do comércio dos escravos (conquanto muito remunerativo), a sede de poder e dinheiro desenvolvida na Renascença, robustecida pela descoberta dos mundos novos, levara a opinião a se acomodar a novas práticas de escravização dos colonizados. Recordemos que, de acordo com o pensamento de Aristóteles e de Santo Tomás de Aquino, se pensava que, legislando-se sobre a proteção dos escravos, se protegiam estes contra a crueldade de seus senhores. Calvino não compartilhava dessa opinião. Em diversos comentários e sermões, afirmava que a escravidão era absolutamente contrária à ordem natural correspondente aos desígnios de Deus. Demonstrava que essa ordem fora e continuava sendo degenerada pelo pecado dos homens. "Ainda que os primeiros que haviam sido escravizados", escrevia, "tenham sido oprimidos por direito de guerra ou porque a pobreza os haja constrangido, é absolutamente certo que a ordem da natureza se corrompera violentamente". "E, se bem que seja útil que uns superintendam outros, conviria mais, todavia, preservar uma condição de igualdade entre irmãos"[iv]. O reformador insiste, também, sobre o fato de que a libertação dos escravos é muito freqüentemente de tal sorte explorada que os libertos tombam para a situação pior que a anterior. Por isso, ajunta, o Antigo Testamento prescreve que o escravo emancipado deve receber, no momento da libertação, toda a ajuda necessária para a assunção de sua plena liberdade. E o ensinamento do Novo Testamento e de São Paulo em particular, prossegue, confirma o do Antigo. Ele nos esclarece que a escravidão, "contrária a toda ordem natural", é, com muito maior razão, oposta à ética cristã. Mas, acrescenta ainda o reformador, a ordem da sociedade não pode ser mudada, enquanto os próprios crentes não se ajustarem à Palavra de Deus de forma muito estrita, para deslanchar as transformações necessárias da ordem política. Caso contrário, esta permanece "a ordem de Deus perturbada"[v]. Vê-se, pois, que o pensamento original da Reforma é completamente oposto aos costumes e hábitos de seu século e dos séculos seguintes, acerca de tudo o que se refere à escravidão e à sorte dos indígenas colonizados. Fonte: http://www.e-cristianismo.com.br/pt/historia-geral/157-luta-contra-discriminacao [i] Jean de Léry, Le voyage au Brésil, Paris, 1927. Ver também Olivier Reverdin, Quatorze calvinistes chez les Tupinambous, Genebra, 1957. [ii] J. de Léry, op. cit., p. 13. [iii] Ibid. p. 208. [iv] J. Calvino, Commentaire sur les cinq livres de Moïse, Genèse, ch. 12, v. 5. [v] Ibid. Um Canal Reformado! Sempre reformando!

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