DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; Sola Scriptura, sola Gratia, sola Fide, soli Deo Glória, solus Christus;

DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; SOLA SCRIPTURA, SOLA GRATIA, SOLA FIDE, SOLI DEO GLÓRIA, SOLUS CHRISTUS; Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Judas:3;

quinta-feira, 26 de julho de 2012

O USO CORRETO DA EXPRESSÃO "UNGIDO DO SENHOR"


“O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, 
isto é, queeu estenda a mão contra ele, pois é o ungido do SENHOR” (1Samuel 24.6).“A Bíblia diz: Ai daquele quetocar no ungido do Senhor!”Quantas vezes você já ouviu essaafirmação, que soa como uma espécie de imprecação e ameaça? Particularmente, jáouvi dezenas de vezes. Já li outras tantas. Ela é usada com frequência poralguns pastores e líderes que imaginam que o pastorado os torna incriticáveis. Aideia transmitida pelo uso indiscriminado da expressão “sou um ungido doSenhor” é que a mesma é uma espécie de “imunidade eclesiástica”, que concede aoindivíduo licença para fazer o que quiser, agir como bem entender, sem aobrigação moral de prestar contas a ninguém por seus atos e seus desmandos.Basta que você admoeste o indivíduo por alguma coisa para imediatamente ele (oualguém que o apoia em suas loucuras megalomaníacas e narcisistas) diga: “ABíblia diz: Ai daquele que tocar no ungido do Senhor!”Será que isso está correto? Seráque os pastores são os “ungidos do Senhor” e, por essa razão, são incriticáveise intocáveis? Possuem eles algum tipo de imunidade, que o impede de seradmoestado, exortado a se arrepender de seus pecados? Precisamos examinar asSagradas Escrituras, pois só elas podem nos dar o correto entendimento daexpressão.A expressão no Antigo TestamentoO termo “ungido” (no hebraico, x;yvim' [Mashiah] aparece47 vezes nas Escrituras do Antigo Testamento, majoritariamente em 1 e 2Samuel (19vezes) e em Salmos (9 vezes). Victor P. Hamilton afirma que, “mashiah é quase exclusivamente reservadocomo sinônimo de ‘rei’ (melek, q.v.),como em textos poéticos, onde é paralelo de ‘rei’ (1Sm 2.10; 2Sm 22.51; cf. Sl2.2; 18.50 [51]; mas cf. Sl 28.8, onde é paralelo de ‘povo’). São notáveis asfrases ‘o ungido do SENHOR’ (mashiah YHWH)ou equivalentes, tal como ‘seu ungido’, as quais se referem a reis”.[i]É importante compreender, como afirma Geerhardus Vos, que “a palavra sempre équalificada por um genitivo ou um sufixo ligada a ela: ‘o Messias de Yahweh’(‘o Ungido do Senhor’), ou ‘meu Messias’ (‘meu Ungido’)”.[ii]Algumas passagens podem ajudar a elucidar isso:“Os que contendem com o SENHOR são quebrantados; dos céus trovejacontra eles. O SENHOR julga as extremidades da terra, dá força ao seu rei eexalta o poder do seu ungido” (1Samuel 2.10).No contexto da escolha de Saulcomo o primeiro rei de Israel, o profeta Samuel, em seu discurso de despedida,diz: “Eis-me aqui, testemunhai contra mimperante o SENHOR e perante o seu ungido: de quem tomei o boi? De quem tomei ojumento? A quem defraudei? E das mãos de quem aceitei suborno para encobrir comele os meus olhos? E vo-lo restituirei [...] E ele lhes disse: O SENHOR é testemunha contra vós outros, e o seuungido é, hoje, testemunha de que nada tendes achado nas minhas mãos. E o povoconfirmou: Deus é testemunha" (1Samuel 12.3,5).Por ocasião da unção de Davi comorei de Israel, Samuel imaginou que Eliabe fosse o ungido do Senhor: “Sucedeu que, entrando eles, viu a Eliabe edisse consigo: Certamente, está perante o SENHOR o seu ungido” (1Samuel16.6).“No presente sou fraco, embora ungido rei...” (2Samuel 3.39a).“Então, respondeu Abisai, filho de Zeruia, e disse: Não morreria, pois,Simei por isto, havendo amaldiçoado ao ungido do SENHOR?” (2Samuel 19.21).“É ele quem dá vitórias ao seu rei e usa de benignidade para com o seuungido, com Davi e sua posteridade, para sempre” (2Samuel 22.51).Todas as passagens listadas acimamostram, de forma indubitável, que a figura do “ungido do Senhor” no AntigoTestamento era o rei de Israel, o rei-pastor, responsável pela condução ecuidado das ovelhas de Yahweh.Outra passagem muito importanteque atrela o conceito de “ungido do Senhor” à figura do rei é 1Samuel 24.6: “O SENHOR me guarde de que eu faça tal coisaao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele, pois é o ungido doSENHOR” (cf. também 24.10; 26.9,11,16,23 e 2Samuel 1.14,16,21). O “ungidodo SENHOR” a quem Davi se refere é o rei Saul. Matthew Poole afirma que essaexpressão significa que Saul foi “ungido por Deus para o reino”.[iii]Isso é representado pelo ato de ter sido ungido com óleo pelas mãos do profetaSamuel: “Tomou Samuel um vaso de azeite,e lho derramou sobre a cabeça, e o beijou, e disse: Não te ungiu, porventura, oSENHOR por príncipe sobre a sua herança, o povo de Israel?” (1Samuel 10.1).No Pentateuco o termo mashiah foi usado para se referir aoofício sacerdotal. “Moisés recebeu instruções para ungir, ordenar e consagrarArão e seus filhos, de modo que eles pudessem ser reconhecidos, autorizados equalificados para servir no sacerdócio”.[iv]Em Levítico 16.32 está escrito: “Quem forungido e consagrado para oficiar como sacerdote no lugar de seu pai se fará aexpiação, havendo posto as vestes de linho, as vestes santas”. Outraspassagens que falam dos sacerdotes como “ungidos” são: Levítico 4.3,5,16;6.20,22 e Números 35.25. Além disso, Êxodo 29 traz em detalhes as prescriçõesdivinas para a unção e consagração de Arão e seus filhos como sacerdotes.Existe discussão quanto à unçãopara o ofício de profeta. Existe discussão até mesmo sobre profeta não ser umofício. Há quem defenda essa posição. De acordo com essa visão, visto que osprofetas não eram ungidos no Antigo Testamento, eles não podem ser consideradoscomo detentores de um ofício, mas sim de uma função. Essa posição é seriamentedesafiada por Gerard van Groningen, que acertadamente diz:Pela falta deprova bíblica não se deve concluir que os profetas não eram ungidos, isto é,designados, separados, autorizados e capacitados para seu trabalho. O fato denão haver relato de um rito de unção prescrito não significa a inexistência deum rito. O fato de haver referência à unção de profetas leva-nos à suposição deque um rito poderia ter sido conhecido, mesmo que não fosse praticado sempre damesma forma.Os profetaseram considerados ungidos, como claramente inferimos das ordens de não “tocar”os ungidos de Deus e de não “maltratar” seus profetas (Sl 105.15 e 1Cr 16.22 –paralelismo sintético). As referências são aos patriarcas. Não se sabe como equando eles foram ungidos, mas os patriarcas eram profetas, servos ungidos deDeus. O fato de o Senhor mandar Elias ungir Eliseu (1Rs 19.16) certamentesignificava que os homens foram feitos cônscios de sua designação, consagração,autoridade e capacitação para um ofício.[v]Além disso, a passagem de Isaías61.1-3 fala exatamente da unção de um profeta: “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR me ungiupara pregar boas-novas aos quebrantados, enviou-me a curar os quebrantados decoração, a proclamar libertação aos cativos e a pôr em liberdade os algemados;a apregoar o ano aceitável do SENHOR e o dia da vingança do nosso Deus; aconsolar todos os que choram e a pôr sobre os que em Sião estão de luto umacoroa em vez de cinzas, óleo de alegria, em vez de pranto, veste de louvor, emvez de espírito angustiado; a fim de que se chamem carvalhos de justiça,plantados pelo SENHOR para a sua glória”. Gerard van Groningen afirma que,“não é descrito o ritual da unção, mas há referência a ele e o resultado éclaramente expresso”.[vi]Para quem os três ofícios e a expressão “ungido do Senhor” apontam?Como foi atestado pelo AntigoTestamento, os “ungidos do Senhor” eram homens escolhidos pelo Senhor paradesempenharem os ofícios de rei, profeta e sacerdote. Além desse fato, doishomens, a saber, Moisés e Samuel, desempenharam os três ofíciossimultaneamente. Moisés serviu como profeta, transmitindo a vontade de Deus aoseu povo, como sacerdote que oficiou a consagração de Arão e seus filhos e comoo líder (governante).[vii]Samuel, semelhantemente, era um profeta, um sacerdote que oferecia sacrifíciosa Deus e um juiz, alguém encarregado de governar o povo. Mais uma vez, Gerardvan Groningen faz um excelente comentário sobre a interrelação dos trêsofícios: “É fora de dúvida que os três ofícios deviam complementar-se entre sie cumprir papéis que eram vitais para cada um dos outros dois. Este fatoesclarece por que os três ofícios eram cumpridos por homens designados como‘ungidos do Senhor’”.[viii]Os três ofícios, profeta,sacerdote e rei, foram desempenhados pelo Senhor Jesus Cristo. E, de fato,todos aqueles que, no Antigo Testamento, desempenharam essas funções e, poressa razão, eram conhecidos como os “ungidos do Senhor”, apontavam para JesusCristo. Todos os profetas, sacerdotes e reis da antiga administração do Pactoeram tipos de Jesus Cristo, prefiguravam o Messias, o Ungido de Deus. O Catecismo Maior de Westminster,respondendo à pergunta 42[ix],diz o seguinte sobre o tríplice ofício de Cristo: “O nosso Mediador foi chamadoCristo porque foi, acima de toda a medida, ungido com o Espírito Santo; e assimseparado e plenamente revestido com todaa autoridade e poder para exercer as funções de profeta, sacerdote e rei da suaIgreja, tanto no estado de sua humilhação, como no da sua exaltação”.[x]O mesmo está expresso pela Confissão deFé de Westminster, no capítulo sobre “Cristo, o Mediador”: “I. Aprouve aDeus, em seu eterno propósito, escolher e ordenar o Senhor Jesus, seu FilhoUnigênito, para ser o Mediador entre Deus e o homem, o Profeta, Sacerdote e Rei, o cabeça e Salvador de sua Igreja, oHerdeiro de todas as coisas e o Juiz do mundo”.[xi]William G. T. Shedd expõe as maneiras como Cristo desempenhou os três ofíciosda seguinte maneira:Seu ofícioprofético é ensinado nas seguintes passagens: “O SENHOR, teu Deus, te suscitaráum profeta do meio de ti, de teus irmãos, semelhante a mim” (Dt 18.15,18; Atos3.22); “O Espírito do SENHOR Deus está sobre mim, porque o SENHOR meungiu para pregar boas-novas” (Is 61.1; Lc 4.18). Seu ofício sacerdotal éensinado nas seguintes passagens: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordemde Melquisedeque” (Sl 110.4; Hb 5.5-6); “Tendo, pois, a Jesus, o Filho de Deus,como grande sumo sacerdote que penetrou os céus” (Hb 4.14-15). Seu ofício realé ensinado nos seguintes textos: “o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro,Deus Forte, pai da Eternidade, Príncipe da Paz” (Is 9.6-7); “Eu, porém,constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião” (Sl 2.6).[xii]A afirmação de Turretin também éinteressante:Agora, comotodos os tipos relacionados com Cristo obtiveram o seu cumprimento nele, Cristodeve apresentar a verdade desse tríplice ofício em si mesmo, mas muito maisperfeitamente do que nos outros – não apenas em razão da conjugação destas trêspartes (que nenhum homem poderia cumprir ao mesmo tempo, como já vimos), mastambém em virtude da eminência e dignidade, tanto do seu ofício como dos seusdons.[xiii]ConclusãoA conclusão à qual podemos chegarapós o arrazoado feito até aqui, é que todos aqueles que sob a economia doAntigo Testamento foram chamados de “ungidos do Senhor” serviam como tipos deJesus Cristo, ou seja, eles eram prefigurações de Jesus, apontavam para o verdadeiroMessias, o verdadeiro Ungido. Sendo assim, a expressão “ungido do Senhor” éclaramente messiânica, e todos aqueles que nos dias de hoje se apropriam de talexpressão estão, na realidade, agindo com um maligno messianismo, colocando-seno mesmo patamar de Jesus Cristo, exigindo das pessoas sob seus cuidados umarevência, uma dignidade e honra que pertencem exclusivamente a Jesus, o Ungidodo Senhor.Além disso, esconder-se atrás daexpressão “ungido do Senhor” é, de certo modo, esposar o episcopado romanista.Aqueles que se consideram como os intocáveis “ungidos do Senhor” dão a entenderque possuem um tipo de unção diferenciada, uma unção desconhecida e nãopossuída pelas pessoas comuns, os membros da igreja, o que é algo falso eantibíblico. Pastores não são “ungidos do Senhor” de maneira diferenciada. Elesnão são Ungidos, Messias, dotados de um tipo de “imunidade diplomática”. Vociferar:“A Bíblia diz: Ai daquele que tocar no ungido do Senhor! Por isso, não metoque! Não queira ser meu inimigo, pois o Senhor pesa a mão sobre todos aquelesque tocam nos seus ungidos!”, é cometer um sério atentado contra a doutrina dosacerdócio universal de todos os crentes.O Novo Testamento apresenta umaexpansão nesse conceito, mostrando que todos aqueles que estão unidos a JesusCristo, o verdadeiro Ungido do Senhor, são igualmente ungidos pelo EspíritoSanto como profetas, sacerdotes e reis. O apóstolo Pedro faz uma afirmaçãofantástica nesse sentido: “Vós, porém,sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusivade Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevaspara a sua maravilhosa luz” (1Pedro 2.9). Os três ofícios são mencionadospor Pedro: “sacerdócio real” (ofícios sacerdotal e real), e “a fim de proclamardes”(ofício profético). O apóstolo está falando de todos os verdadeiros crentes.Todos eles são “sacerdócio real”. Todos têm o dever de proclamar “as virtudesdaqueles que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”. Encerro com acorreta afirmação de Geerhardus Vos: “O Rei ‘ungido’ e o povo ‘ungido’ estãointimamente relacionados. O caso paralelo da atribuição da ‘filiação’ a ambossugere a possibilidade da posse comum da ‘unção’ por parte de ambos. No NovoTestamento, a unção é concedida tanto a Cristo como aos crentes”.[xiv]Portanto, ninguém pode dizer: “Sou um ungido doSenhor, e por isso, ninguém pode tocar em mim!”, sem incorrer em grave falta.[i] Victor P. Hamilton, In: R. LairdHarris, Gleason L. Archer, Jr., e Bruce K Waltke. Dicionário Internacional de Teologia doAntigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2001. p. 885.[ii] Geerhardus Vos. The Self-Disclosure of Jesus: The Modern debate about the MessianicConsciousness. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2002. p. 105.[iii] Matthew Poole. A Commentary On the Holy Bible: Genesis-Job. Vol. 1. Grand Rapids,MI: Hendrickson Publishers, 2010. p. 572.[iv]Gerard van Groningen. RevelaçãoMessiânica no Antigo Testamento. São Paulo: Cultura Cristã, 2004. p. 29.[v]Ibid. p. 30.[vi]Ibid. p. 31.[vii]O teólogo genebrino Francis Turretin afirma que, “nunca conhecemos ninguém que,perfeitamente, cumpriu os três ofícios. Eles estavam reservados para Cristo”.Cf. Francis Turretin. Institutes ofElenctic Theology. Vol. 2. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 1994. p. 392.Todavia, a discordância pode ser entendida quando leva-se em consideração queTurretin tem em mente o ofício real em si mesmo, ao passo que menciono Moisés eSamuel não como reis, mas simplesmente como homens que exerceram o governoentre o povo de Irael.[viii]Ibid.[ix]Pergunta 42: Por que foi o nosso Mediador chamado Cristo?[x]O CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2002. p. 52.Ênfase acrescentada.[xi]A CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER. São Paulo: Cultura Cristã, 2003. pp. 73-74.[xii] William G. T. Shedd. Dogmatic Theology. Phillipsburg, NJ: P&R Publishing, 2003. p.681.[xiii] Francis Turretin. Institutes of Elenctic Theology. Vol.2. p. 394.[xiv] Geerhardus Vos. The Self-Disclosure of Jesus: The Modern debate about the MessianicConsciousness. p. 107.

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