DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; Sola Scriptura, sola Gratia, sola Fide, soli Deo Glória, solus Christus;

DEFENDENDO A FÉ DESDE 1536; SOLA SCRIPTURA, SOLA GRATIA, SOLA FIDE, SOLI DEO GLÓRIA, SOLUS CHRISTUS; Amados, quando empregava toda a diligência em escrever-vos acerca da nossa comum salvação, foi que me senti obrigado a corresponder-me convosco, exortando-vos a batalhardes, diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Judas:3;

sábado, 25 de agosto de 2012

Calvino contra os calvinistas


Por Pedro Araújo Um dos argumentos mais básicos [e fúteis] dentro do meio evangélico contra os calvinistas é a suposição de que eles distorcem os ensinos do reformador – a quixotesca hipótese é levantada principalmente por adeptos da controvérsia arminiana. Eles também alegam que os calvinistas são meros teóricos que retrocedem a filosofias medievais e fomentam um legalismo contrário à mensagem da Graça de Deus tão pregada por Calvino. Muitos dizem que foram às fontes, Às Institutas, e declaram que os seguidores de Calvino não entenderam direito o que ele quis dizer – mas podemos estar certos de que se os que alegam isso então tivessem entendido, certamente não seriam arminianos. Também se acusa que os calvinistas tratam a questão da “predestinação” fora de contexto, afastando-a do verdadeiro significado soteriológico que Calvino colocou em relação a ela, reduzindo-a a um simples determinismo, como mero dogma central de um “sistema teológico”. Outra acusação é em relação à “certeza da salvação”, sobre a qual os anti-calvinistas alegam que os calvinistas enfatizam muito o aspecto subjetivo dessa convicção, dissociando a “fé” da “certeza da salvação” – como se estes também não apontassem para Cristo a fim de se ter esta segurança (tal qual Calvino fez)! Alegam ainda, em relação à “doutrina do pacto”, que muitos calvinistas se contrapõem a Calvino distorcendo bilateralismo e unilateralismo no que diz respeito ao que as bênçãos divinas dependem, às obras, à responsabilidade humana e a soberania de Deus, dizendo que a forma com que os sucessores de Calvino desenvolveram esta doutrina os distancia dele por enfatizarem Lei ao invés de Graça. Quando os arminianos fazem isso, na verdade eles confundem sinergismo com monergismo na questão da salvação, regeneração e Graça determinante. Também, pra muitos, o calvinismo é tido como um tipo de teologia racionalista, cheia de especulações metafísicas, tornando a compreensão do Evangelho algo árido, determinista, enfraquecido em seu caráter pastoral e extremamente comprometido com bases filosóficas seculares, como principalmente a filosofia aristotélica. Tudo isso, é claro, a despeito do que na realidade se vê, que é o arminianismo abraçado com as heranças e silogismos humanísticos do Iluminismo (e agora da Nova Era), com boas doses de visão e embasamento romantista de suas crenças e respingos do relativismo do teísmo aberto. Alguns colocam como ponto decisivo da suposta contradição entre os calvinistas e Calvino o momento que que a predestinação passou a ser confundida com mero pré-determinismo, e vão mais além nesta vereda quando atacam o ponto da “expiação limitada”, alegando que Calvino jamais levantou ou deu margem a tal premissa, e ainda alegam que Calvino inclusive teria se recusado a defender tal ponto. Historiadores [inegavelmente tendenciosos] dizem que no Século XVII o calvinismo entrou em um “processo de enrijecimento”, baseando-se principalmente em que a Confissão de Fé de Westminster teria esquematizado tanto a teologia de Calvino que a essência original dela se perdeu, acrescentando que – a exemplo da tal Confissão – a ortodoxia calvinista acabou “manchando” o calvinismo verdadeiro, transformando Calvino em alguém mais rígido e menos “simpático” do que ele realmente foi. Apenas dando uma pincelada, o problema é que muitos dos que se opõem ao calvinismo confundem estruturas filosóficas – que de fato podem determinar conteúdos teológicos – com “métodos acadêmicos”, e assim, ao criticarem os “métodos” [principalmente históricos] do calvinismo, criticam seus próprios métodos, ainda mais se estiveram falando das heranças do “escolasticismo” dos séculos XVI e XVII, o que era “compartilhado” também por católicos romanos, luteranos e depois, inclusive, arminianos. A filosofia e o “escolasticismo” faziam parte da formação de muitos personagens do período da Reforma e do período pós-Reforma, o que inclui Calvino, e as referências negativas que este fazia aos “escolásticos” se referiam essencialmente aos erros dos conteúdos teológicos deles, e não à sua “cultura acadêmica”. Em relação à forma de expor as doutrinas, comparar o estilo literário dos escritos catequéticos com os do “escolasticismo reformado” é uma falha na própria distinção dos gêneros, e insinuar que a postura do período da Reforma era muito mais “pastoral” em comparação à aridez do “escolasticismo” pós-Reforma beira o absurdo. Mas pra não radicalizar tanto basta notarmos que os estilos mais teológicos e mais pastorais sempre coexistiram [e "interagiam" entre si], e que pros verdadeiros Reformados nunca foram indissociáveis (por mais que alguns tivessem maior habilidade em enfatizar um estilo em particular, como é até hoje). Ambos tinham propósitos que se completavam: os escritos escolásticos eram mais “acadêmicos” – redundância – e fomentavam a discussão a favor da precisão doutrinária, principalmente contra as heresias, enquanto os escritos catequéticos eram destinados à instrução dos leigos. Dizer que “ao longo da História da Igreja, os líderes que mais ‘ganharam almas pra Jesus’ não ficavam perdendo tempo com ‘discussões teológicas’” é, no mínimo, ignorância e ao mesmo tempo ingratidão e desonra à memória e ao legado deles. No ponto do unilateralismo e bilateralismo acerca da “doutrina do pacto” os anti-calvinistas criam caso com aquilo que é simplesmente uma questão de ênfase em relação ao pacto da Graça, desconsiderando que no que diz respeito ao pacto das obras Calvino apresenta os elementos de uma aliança pré-queda. Quando à questão da certeza da salvação, não há diferença qualitativa entre o declarado na Confissão de Westminster e Calvino, já que ele também distinguia entre a definição de fé comum e a realidade da fé na experiência do cristão. Em relação ao principal ponto de ataque, sobre onde os calvinistas posicionaram a “predestinação”, isso não altera o sentido da doutrina, pois Calvino não amainou a questão ao posicioná-la “sistematicamente” sob a soteriologia, ao invés de relacioná-la à doutrina dos decretos. Mesmo a real ênfase da “predestinação” sendo para servir de conforto e segurança aos crentes, “predestinação” não deixa de ser algo subordinado à vontade soberana de Deus. Ainda que Calvino tenha influenciado intensamente as gerações posteriores, os anti-calvinistas tentam enfiar-nos goela abaixo que o Calvino “histórico” se perdeu nas gerações pós-Reforma. Mas como então seria possível que tamanha influência de Calvino sobre os que vieram depois dele simplesmente excluísse o aspecto teológico? É, no mínimo, logica e sensatamente impossível. As Institutas tiveram ampla circulação pela Europa, e, de fato, a simplicidade com que a obra tratou certas questões e o caráter catequético dela contribuíram pro seu sucesso, além do que, o público leigo foi atingido principalmente por “resumos” dela. Mas esta obra não deve ser isolada dos comentários em que Calvino foi mais incisivo sobre determinados textos bíblicos em disputa [entre arminianos e calvinistas, principalmente], e além disso os escritos polêmicos e apologéticos de Calvino – cujo foco poderia até estar mais na defesa da fé de “fora pra dentro” – também abordavam muitos pontos doutrinários – onde, digamos, se faz apologética de “dentro pra fora”. Enquanto o luteranismo (considerado herdeiro do “estopim” da Reforma) recuou, em menos de 200 anos o calvinismo alcançou todo o noroeste da Europa, passando pelas ilhas britânicas, chegando até o então recém-colonizado Estados Unidos. Muitos foram fortemente influenciados pelo contato pessoal com Calvino, e seus escritos foram muito mais longe. Importantes academias e universidades tiveram forte influência direta da teologia e cosmovisão de Calvino. Ao mesmo tempo que atacam os calvinistas, muitos opositores incorrem no erro de considerar Calvino como praticamente o único ponto de referência do Movimento Reformado, mas ele era “apenas” mais um, dentre tantos, pastor-teólogo da Fé Reformada. Essa visão ignora seus contemporâneos (e também mais velhos) como principalmente Zwinglio (dentre outros) e até, de certa forma, o próprio Lutero – que, como Juliano Heyse comenta em seu curso de História da Igreja, às vezes “acreditava” em predestinação até mais que o próprio Calvino. Estes outros Reformadores além de Calvino e Lutero tiveram influência inclusive muito maior que o próprio Calvino em muitas outras partes da Europa, mas, de maneira geral, tinham uma linha de pensamento coerentemente “calvinista”. Portanto, tentar colocar Calvino contra os calvinistas é uma grande falha, tanto no sentido de considerá-lo como único progenitor ou, ao menos, a principal influência à Teologia Reformada posterior, quanto no sentido de considerar como calvinistas apenas um grupo exclusivo de “seguidores” de Calvino, enquanto na verdade o calvinismo de fato pode até representar a própria Teologia Reformada Protestante (que não é só de Calvino), e não apenas um ramo dela. O arminianismo, sim, é apenas um ramo do protestantismo, ou pior, um desvio da ortodoxia protestante (pra não dizer heresia). Um dos principais pontos de contradição que tenho notado dentre os arminianos repousa sobre a questão do livre-arbítrio. Considerando seu debate com Erasmo de Roterdã, Lutero destacou a questão como talvez o ponto de disputa mais essencial da Reforma. Em suma, Lutero tinha uma posição [resumidamente] contrária e firme (o que é revelado em sua ênfase em salvação pela Graça e justificação pela fé), tal qual Calvino e os calvinistas – mas quando questionam sobre isso os arminianos tendem a “isolar” os calvinistas. Na verdade, caminhando mais, muitos arminianos hoje vão além, tomando uma postura contraditória em favor do livre-arbítrio que passa daquilo que podemos “respeitar” no arminianismo e até mesmo vai além do semi-pelagianismo. Junto com questões escatológicas, hoje, parece que a maioria dos evangélicos – maioria esta “anti-calvinista” – se posiciona a um abismo de distância da verdade bíblica tão defendida na Reforma, enquanto a linha que os separa dos movimentos heréticos mais evidentes é cada vez mais tênue – pra muitos deles Jesus Se tornou o caminho com várias vias, as meias-verdades e a vida supostamente piedosa, mas no fundo antropocêntrica. Voltando à História, no período pós-Reforma, Calvino era considerado em pé de igualdade dentre vários nomes da tradição ortodoxa, o que, além de Reformados, incluía os Pais da Igreja e teólogos medievais; porém Calvino se destacava quando a genuína Linha Reformada era posta em debate. Supor que Calvino é o único ponto de referência do Movimento Reformado implica na falha de considerar “calvinismo” como uma pedra dogmática isolada dentro do movimento, o que não é real. É fato que a Ortodoxia Reformada nunca tentou repetir Calvino, mas sim desenvolver sua teologia com base nas contribuições dele, juntamente com a dos demais. Achar que os calvinistas são, ou devam ser, uma cópia idêntica de Calvino é, no mínimo, estranho, mas – mesmo que os calvinistas ao longo do tempo tivessem até dado outras ênfases e feito outras abordagens sobre o legado de Calvino – tentar colocar o Reformador contra seus “seguidores” é mais estranho ainda. Uma das únicas “razões”, talvez, para que, principalmente como fizeram os neo-ortodoxos, interpretar Calvino e outros Reformadores como se eles fossem hipoteticamente contrários aos seus “sucessores” ao longo da história pós-Reforma é porque – como o próprio contexto histórico e cultural de Reforma explica e justifica – os primeiros Reformadores eram às vezes menos claros que os Reformados posteriores. Como também destaca Juliano Heyse, se você, por exemplo, ler as 95 Teses de Lutero você poderá talvez se decepcionar com a catolicidade dos escritos – era um católico romano escrevendo e questionado o Papa, e não um evangélico “viajando” na tranquilidade de seu mundinho gospel. Precisamos entender que os Reformadores viveram num momento de transição, no ocaso da Idade Média, aliás, eles mesmos eram os agentes da “transição” designados por Deus, enquanto os Reformados posteriores já puderam trabalhar sobre as bases sólidas resgatadas na Reforma. O desenvolvimento doutrinário da Ortodoxia Reformada trouxe algumas distinções, mas que na verdade fazem é esclarecer (e até “conciliar”) determinados posicionamentos que antes se encontravam em meio a uma diversidade de opiniões que se evidenciavam constantemente no contexto “explosivo” da Reforma. Mas o fato dos Reformados posteriores serem mais claros que Calvino, por exemplo, em alguns pontos não diminui o mérito dele – ele foi extraordinário para o seu período, mas o desenvolvimento é uma naturalidade histórica, e saudável. E foi justamente a fidelidade a Calvino, aliada ao desenvolvimento teológico, que faz com que o nome dele se tornasse uma das mais importantes referências do período pós-Reforma e até nossos dias. Ele é parte de algo bem maior, que começou bem antes da Reforma – que nos leva a Agostinho, que nos leva a Paulo, que nos leva a Cristo – e ainda perdurará por muito tempo. É claro que existem muitos calvinistas (prefiro dizer talvez supostos calvinistas) extremamente equivocados, mas equívoco igual é contar os calvinistas genuínos junto com os equivocados – um exemplo é que, por desconhecimento [ou desonestidade mesmo], muitos anti-calvinistas confundem os calvinistas com os hiper-calvinistas (que são aqueles que, por exemplo, ignoram o chamado à evangelização e “desequilibram” a soberania e o amor de Deus entre si). Outros calvinistas, mesmo sendo sinceros, falham em se dedicarem muito mais à mera edificação intelectual do que ao Evangelho da Sã Doutrina na prática. Existem outros que se dizem calvinistas “moderados”, mas na verdade são geralmente arminianos disfarçados. Sabemos que existem pessoas no meio que também simplesmente – mas isso não é só em relação ao calvinismo, mas no próprio Evangelho “em geral” isso acontece – e por isso mesmo os equívocos (que são minoria) não devem ser tomados como base para denegrir o calvinismo, e consequentemente o Evangelho, professado pela maioria. Os anti-calvinistas sempre encontram muita “base” contra os calvinistas, mas todas elas no fim das contas se mostram tão somente como sofismas que caem perante o biblismo da Doutrina Calvinista e, consequentemente, Reformada, Agostiniana, Paulina e Cristã. Talvez por verem que a teimosia em negar não só o calvinismo, mas as próprias evidências das Escrituras, se torna cada vez mais inconveniente, uma nova estratégia (nem tão nova assim) é justamente tentar colocar Calvino contra calvinistas, e isso acaba por implicar em colocar a Reforma contra Reformados, Agostinho conta agostinianos, Paulo contra paulinos e – sei que muitos vão achar exagerado – com o tempo podem até tentar colocar Cristo contra cristãos (aliás, é isso o que o mundo já faz). Por, de fato, não entenderem o discipulador, tentam-no colocar contra os discípulos. E se tivermos em mente o fato de que muitos dos que hoje defendem ferrenhamente o arminianismo contra o calvinismo são de grupos que historicamente eram calvinistas, e abandonaram por motivos seculares diversos os princípios reformados [e bíblicos], somos levados a concluir que a maioria esmagadora dos anti-calvinistas que se dizem protestantes ou evangélicos simplesmente – com todo respeito – “cospe no prato que comeu”. Referencial: Calvino e os calvinistas da pós-Reforma (Heber Carlos de Campos Júnior)


















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